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Institucional

Da representatividade ao poder de decisão: os desafios da liderança feminina

Painel com participação de Marcela Rezende, CMO do Stark Bank, debateu os desafios da liderança feminina, o papel da diversidade nas empresas e o poder de transformar representatividade em decisões

A presença de mulheres em posições de liderança vem crescendo, mas ocupar uma cadeira de comando ainda não significa, necessariamente, ter poder para decidir. Esse foi um dos principais pontos discutidos por Marcela Rezende, CMO do Stark Bank, durante o painel especial “O dividendo feminino: diversidade no comando e performance, não pauta”, ao lado de Talita Lacerda, CEO da Petlove, e Bruna de Caro, diretora de Marketing da B3, com mediação de Layane Serrano, repórter da Exame.

Ao longo da conversa, as participantes discutiram temas como diversidade nas empresas, educação financeira, confiança, carreira, maternidade, performance e, principalmente, o papel das mulheres na tomada de decisões.

Para Marcela, existe uma mudança importante de perspectiva que precisa acontecer nas empresas: diversidade não pode ser tratada apenas como uma agenda de pessoas. Ela precisa ser entendida como uma questão diretamente relacionada ao negócio. “Se já foi comprovado que diversidade traz diferentes pontos de vista, diferentes perspectivas e melhora a tomada de decisão, isso precisa deixar de ser uma pauta de RH e passar a ser uma pauta de negócio”, comentou.

Diversidade também é uma questão de performance

A discussão sobre diversidade muitas vezes começa pela representatividade. Quantas mulheres estão na empresa? Quantas estão em cargos de liderança? Quantas ocupam posições no conselho?

Esses indicadores são importantes, mas, para Marcela, eles não contam toda a história. Uma empresa pode ter mulheres em posições de liderança e, ainda assim, não oferecer a elas espaço real para participar das decisões.

“Não adianta praticar diversidade colocando uma mulher ali para dizer ‘eu tenho uma mulher CEO’ ou ‘tenho três, quatro, cinco mulheres na liderança’ se, no final das contas, elas não têm poder para fazer absolutamente nada”, afirmou a executiva durante o painel.

O ponto central é transformar presença em participação. E participação em poder de decisão.

O poder de errar, decidir e assumir responsabilidades

Para Marcela, uma liderança efetiva acontece quando a mulher tem autonomia para definir caminhos, assumir responsabilidades e também lidar com os erros que fazem parte de qualquer posição de decisão.

“A partir do momento em que a mulher começa a definir a estratégia, definir o budget, tomar rumos, ter a possibilidade de escolher para que caminho a companhia ou determinadas ações vão e, se der errado, assumir a responsabilidade sobre aquilo sem ser punida de forma diferente, começamos a enxergar que ela está efetivamente em uma cadeira onde as pessoas a respeitam”, destacou.

Essa diferença entre ocupar um cargo e exercer uma posição de liderança foi um dos pontos mais relevantes da conversa.

Na prática, dar poder significa permitir que mulheres tenham voz nas decisões estratégicas, espaço para propor caminhos e liberdade para assumir riscos, errar e tentar novamente.

O desafio de conquistar espaço em ambientes predominantemente masculinos

Marcela também compartilhou parte da própria experiência no mercado financeiro.

Ao chegar ao Stark Bank, ela ainda não tinha trabalhado anteriormente no setor e encontrou um ambiente predominantemente masculino. Conquistar legitimidade e confiança, segundo ela, exigiu trabalho, entrega e disposição para se posicionar.

“Quando cheguei, eu nunca tinha trabalhado no mercado financeiro. E eu era a única mulher. Então tive que conquistar a confiança de todos os homens”, pontuou.

Para ela, esse processo também passa pela disposição das próprias mulheres de ocuparem espaço. O medo de errar e a chamada síndrome do impostor podem fazer com que mulheres se cobrem mais e esperem estar completamente preparadas antes de se candidatarem a uma oportunidade.

Marcela trouxe uma comparação conhecida no mercado: enquanto um homem pode se candidatar a uma vaga preenchendo apenas parte dos requisitos, muitas mulheres sentem que precisam atender a todos eles antes de dar o primeiro passo.

“Existe um trabalho do mercado, mas também, do nosso lado, falta nos arriscarmos um pouco mais, sair da zona de conforto e entender que errar faz parte”, disse a CMO.

O que as empresas estão deixando na mesa?

Se diversidade melhora a tomada de decisão ao reunir diferentes experiências e perspectivas, a discussão deixa de ser apenas sobre representatividade. Passa a ser também sobre resultado.

Foi nesse sentido que Marcela propôs uma mudança na pergunta que as empresas fazem sobre diversidade. Em vez de pensar apenas em quantas mulheres precisam estar na liderança, a questão passa a ser: “Quanto dinheiro estou deixando na mesa se não tenho uma empresa diversa?”.

A mudança de perspectiva é importante porque coloca diversidade no mesmo campo das demais decisões estratégicas do negócio. Mais diversidade significa mais experiências, diferentes formas de enxergar problemas e, potencialmente, decisões melhores.

O dividendo feminino vai além da representatividade

O painel também abordou a participação feminina no mercado financeiro e a relação entre educação financeira, patrimônio e autonomia.

Bruna de Caro, da B3, destacou que muitas mulheres demonstram interesse pelo tema, mas ainda enfrentam uma barreira de confiança para começar a investir. Segundo ela, a educação financeira pode representar muito mais do que conhecimento sobre dinheiro: pode ampliar a autonomia e a liberdade de escolha.

Já Talita Lacerda chamou atenção para a importância da flexibilidade, especialmente durante a maternidade, e para a necessidade de as empresas acompanharem o desenvolvimento das mulheres ao longo de toda a carreira.

Os diferentes pontos de vista convergiram para uma mesma questão: criar condições para que mulheres possam não apenas chegar às posições de liderança, mas permanecer, crescer e exercer plenamente seu potencial.

Mais do que colocar mulheres no organograma, o desafio está em criar ambientes onde elas tenham espaço para construir, questionar, decidir e transformar. Porque liderança não é apenas sobre estar na sala, mas também ter voz quando as decisões são tomadas.