O balanço de 2025: recuperação, recordes e uma nova geração de colecionadores.
POR CAMILA YUNES GUARITA
Depois de dois anos seguidos de queda, o mercado global de arte voltou a crescer. Segundo o Art Basel & UBS Global Art Market Report 2026, as vendas somaram US$ 59,6 bilhões em 2025, alta de 4% frente a 2024. Ainda estamos abaixo do pico pós-pandemia de US$ 68,1 bilhões registrado em 2022, mas a direção mudou, e isso já é uma notícia importante para quem acompanha o setor de perto.
Estados Unidos, Reino Unido e China seguem concentrando 76% desse volume. Os EUA lideram com folga: US$ 26 bilhões, 44% do mercado global, crescimento de 5%. O dado que mais me chama atenção, porém, é a França: cresceu 9% e voltou a ganhar relevância no circuito internacional. Os leilões públicos também tiveram um ano forte, com alta de 9% e faturamento de US$ 20,7 bilhões, puxados por peças de altíssimo valor, o que mostra confiança renovada no topo do mercado. Já as galerias faturaram US$ 34,8 bilhões, com as feiras respondendo por 35% desse total, o maior patamar desde 2022. E um dado que gosto de destacar: no mercado primário, mulheres já são metade dos artistas representados pelas galerias, ante 35% em 2018. O mercado está, aos poucos, corrigindo distorções históricas.
E o Brasil? Ainda somos pequenos nessa conta, algo como R$ 3,12 bilhões, menos de 1% do volume mundial, num ano que fechou 5,5% abaixo de 2024. Mas o número não conta toda a história. Vejo isso de perto todos os dias: mais colecionadores novos entrando, mais interesse por artistas brasileiros historicamente subvalorizados, mais disposição para pagar o preço justo por uma obra relevante. A SP-Arte teve uma de suas edições mais fortes dos últimos anos. Para mim, o colecionador brasileiro está mais confiante e mais ativo do que o volume total ainda consegue mostrar.
Os recordes de leilão do ano confirmam esse apetite pelo topo do mercado. O retrato de Elisabeth Lederer, de Gustav Klimt, foi vendido por US$ 236,4 milhões na Sotheby’s Nova York em novembro, o segundo maior valor já pago por uma obra em leilão. Na mesma noite, dois outros Klimt superaram os US$ 60 milhões, e um Rothko chegou a US$ 62,2 milhões na Christie’s. Mas o recorde que mais me chama atenção é o de “El Sueño (La Cama)”, de Frida Kahlo: US$ 54,7 milhões, novo recorde para uma artista mulher e para um artista latino-americano em leilão. E, já em 2026, “Impossible”, de Maria Martins, bateu o recorde pessoal da artista ao ser arrematada por US$ 3,17 milhões na Rago/Wright, em Nova Jersey, quase dez vezes o recorde anterior dela, e mais um passo na valorização das nossas modernistas.
Termino com o dado que mais me anima. Na pesquisa de colecionismo que a Art Basel faz com o UBS, três em cada quatro colecionadores de alta renda ouvidos são millennials ou da geração Z. E a fatia do patrimônio que eles destinam à arte vem subindo: a média entre os colecionadores de alta renda foi de 20% em 2025, contra 15% em 2024. Entre os da geração Z, chega a 26%, a maior proporção de todas as faixas etárias. Compram por redes sociais, apoiam artistas diretamente, sem intermediários, visitam ateliês, encomendam obras. Têm menos medo de errar e mais curiosidade genuína. O UBS projeta a maior transferência de riqueza geracional da história, algo como US$ 83 trilhões nas próximas décadas, e boa parte disso vai virar coleção, com um olhar mais plural, mais digital e mais conectado ao artista.
É esse espírito que guia o Radar de Talentos, parceria que desenvolvemos com o Stark Bank. Todo mês, abrimos uma chamada pelo nosso canal para profissionais do setor criativo se inscreverem. A pessoa selecionada recebe uma consultoria gratuita comigo e um prêmio de R$10 mil para investir na própria produção artística. É um jeito direto de colocar recurso e conhecimento na ponta, exatamente onde a nova geração de artistas mais precisa.
O mercado de arte está mudando de mãos e de cara. E, para quem entende o valor cultural e financeiro de colecionar bem, esse é o melhor momento para começar, ou para reorganizar o olhar sobre o que já se tem.
Camila Yunes Guarita
Fundadora e diretora da Kura

