Painel no Web Summit Rio 2026 reuniu especialistas para discutir como Pix, blockchain e stablecoins estão redesenhando a próxima geração da infraestrutura financeira global.
Quando o Pix foi lançado em novembro de 2020, poucos imaginavam a velocidade com que ele se tornaria parte da rotina dos brasileiros. Em menos de seis anos, o sistema desenvolvido pelo Banco Central transformou a forma como pessoas e empresas movimentam dinheiro, redefinindo expectativas sobre velocidade, disponibilidade e experiência financeira.
Segundo dados do Banco Central, o Pix movimentou mais de R$ 27 trilhões apenas em 2025 e já é utilizado por mais de 170 milhões de pessoas e empresas no Brasil. O sistema se consolidou como um dos casos de sucesso mais relevantes do mundo quando o assunto é modernização da infraestrutura financeira.
Mas durante o Web Summit Rio 2026, uma discussão chamou atenção por olhar além do sucesso do Pix.
A pergunta que guiou o painel “Fintech: Payment Infrastructure, Pix and Blockchain” foi simples, mas profunda: se o Pix revolucionou os pagamentos dentro do Brasil, qual será a próxima transformação da infraestrutura financeira global?
O debate reuniu Luciana Miranda, Head of Institutional Growth da Sphere Labs; Caetano Lacerda, CEO e cofundador da Barte; Eduardo Santos, CTO do Stark Group; e Gustavo Ribeiro, fundador do Brazil Report.
A principal conclusão foi clara: o futuro dos pagamentos não será definido por uma única tecnologia. Será construído pela integração entre diferentes sistemas, operando de forma cada vez mais transparente para empresas e consumidores.
O maior legado do Pix não foi tecnológico
Quando observamos o sucesso do Pix, é comum atribuir sua adoção à tecnologia. Mas essa explicação é incompleta.
O maior legado do Pix foi comportamental. Ele mudou a expectativa das pessoas. Antes, esperar horas ou até dias para que uma transferência fosse concluída fazia parte da experiência financeira. Hoje, esse atraso parece incompatível com a velocidade em que empresas e consumidores operam.
Durante o painel, os participantes destacaram um ponto frequentemente ignorado em discussões sobre inovação financeira: usuários não querem entender a tecnologia. Eles querem resolver problemas.
Esse talvez seja o maior ensinamento do Pixpara o restante do mundo.
As tecnologias mais bem-sucedidas costumam desaparecer da experiência do usuário. Poucas pessoas sabem como funcionam os protocolos que permitem enviar uma mensagem instantânea ou acessar uma página na internet. O mesmo acontece com os pagamentos.
Quando a infraestrutura funciona bem, ela se torna invisível.
O desafio que ainda não foi resolvido
Embora tenha transformado pagamentos entre pessoas e grande parte das transações de varejo, o Pix não eliminou toda a complexidade existente no sistema financeiro.
No ambiente corporativo, os desafios continuam sendo mais sofisticados.
Empresas não precisam apenas movimentar dinheiro. Elas precisam conciliar recebimentos, integrar pagamentos aos seus sistemas, gerenciar aprovações, controlar fluxo de caixa, acessar crédito e operar processos financeiros em escala.
Segundo pesquisa da McKinsey, mais de 80% das empresas globais ainda consideram suas operações financeiras excessivamente fragmentadas e complexas.
Esse dado ajuda a explicar por que muitos instrumentos tradicionais continuam existindo mesmo em um cenário de pagamentos instantâneos.
A próxima evolução da infraestrutura financeira não será apenas acelerar transferências. Será simplificar todo o ecossistema ao redor delas.
LEIA MAIS: Instabilidade no Pix: o que fazer quando o sistema fica fora do ar?
O futuro não será um vencedor único
Ao longo da história da tecnologia, existe uma tendência de imaginar que uma inovação sempre substituirá completamente a anterior.
No setor financeiro, porém, o cenário parece apontar para outro caminho.
Para Eduardo Santos, CTO do Stark Bank, a próxima geração dos pagamentos será construída por diferentes tecnologias atuando de forma complementar.
“O futuro dos pagamentos não será definido por uma única tecnologia. A próxima geração da infraestrutura financeira tende a combinar diferentes sistemas, criando experiências cada vez mais rápidas, seguras e invisíveis para quem está do outro lado da tela.”
Na prática, isso significa que sistemas bancários tradicionais, pagamentos instantâneos, blockchain e stablecoins não precisam disputar espaço entre si. Cada tecnologia tende a resolver problemas específicos dentro de uma arquitetura cada vez mais integrada.
Uma transferência pode começar em uma conta bancária tradicional, utilizar uma stablecoin para atravessar fronteiras e ser convertida novamente para moeda local no destino final. Tudo isso sem que o usuário precise entender quais tecnologias participaram do processo.
A experiência passa a importar mais do que o mecanismo.
O próximo grande problema está além das fronteiras
Se o Brasil conseguiu resolver boa parte dos pagamentos domésticos, o mesmo ainda não acontece nas transações internacionais. Pagamentos cross-border continuam operando sobre estruturas desenvolvidas há décadas.
Em muitos casos, uma transferência internacional depende de uma cadeia de bancos correspondentes até chegar ao destino final. O resultado costuma ser conhecido: custos elevados, baixa transparência e tempos de liquidação que podem variar de dois a cinco dias.
Segundo dados do Banco Mundial, o custo médio global para envio de remessas internacionais permanece próximo de 6% do valor transferido. Em determinadas regiões, esse percentual supera facilmente dois dígitos.
Não por acaso, diversos especialistas apontam pagamentos internacionais como uma das maiores oportunidades de inovação financeira da próxima década.
Quem conseguir reduzir tempo, custo e complexidade nesse processo estará resolvendo um dos problemas mais relevantes da infraestrutura global.
Stablecoins estão deixando de ser uma aposta para se tornar infraestrutura
Nos últimos anos, stablecoins deixaram de ocupar apenas o território dos entusiastas de criptomoedas. Hoje, elas já são utilizadas por empresas, investidores e instituições financeiras em operações reais.
Segundo relatório da Visa, o volume movimentado por stablecoins ultrapassou trilhões de dólares nos últimos anos, consolidando uma nova camada de liquidação financeira baseada em blockchain.
Durante o painel, os participantes destacaram que o principal benefício das stablecoins não está necessariamente na substituição dos bancos, mas na eficiência operacional.
Enquanto transferências internacionais tradicionais podem levar dias, operações em blockchain podem ser liquidadas em segundos ou minutos. Além de pagamentos, stablecoins vêm sendo utilizadas para proteção contra inflação, envio de remessas internacionais, distribuição de salários e operações de tesouraria em mercados emergentes.
A tendência observada pelos especialistas é que os próximos anos sejam marcados pelo crescimento de stablecoins locais, emitidas e reguladas dentro de diferentes jurisdições.
Blockchain é uma discussão sobre confiança
Grande parte das conversas sobre blockchain costuma se concentrar na tecnologia em si. Mas a questão central talvez seja outra.
Blockchain representa uma nova forma de construir confiança.
O sistema financeiro tradicional depende de uma rede de intermediários responsáveis por validar e registrar operações. Blockchain propõe um modelo baseado em registros distribuídos e verificáveis publicamente.
Isso não significa que um sistema substituirá completamente o outro, mas sim que diferentes modelos de confiança passarão a coexistir. A discussão deixa de ser tecnológica e passa a ser estrutural: qual é a maneira mais eficiente, segura e transparente de movimentar recursos em escala global?
Segurança continuará sendo o principal diferencial
Apesar do entusiasmo em torno das novas tecnologias, o painel trouxe uma visão pragmática sobre os desafios que ainda precisam ser superados.
Liquidez, escalabilidade, fragmentação regulatória e segurança continuam sendo obstáculos relevantes para a adoção em massa de novos payment rails. Uma das reflexões mais importantes surgiu justamente desse contexto. Não importa quão rápida ou inovadora seja uma infraestrutura financeira se ela não for capaz de proteger os recursos dos usuários.
Segundo o relatório Cost of a Data Breach, da IBM, o custo médio global de uma violação de dados financeiros ultrapassa US$ 5 milhões por incidente. Em um ambiente cada vez mais digital, confiança e segurança deixam de ser apenas requisitos operacionais e passam a ser vantagens competitivas.
Para os participantes do painel, os protocolos de segurança que conseguirem escalar globalmente serão um dos principais habilitadores da próxima fase da inovação financeira.
O que líderes financeiros devem observar até 2030
O debate realizado no Web Summit Rio 2026 mostrou que a próxima fase da infraestrutura financeira não será marcada pela vitória de uma tecnologia sobre outra.
O cenário aponta para um ecossistema cada vez mais integrado, onde diferentes soluções trabalham juntas para oferecer experiências mais rápidas, seguras e eficientes.
Pix, blockchain, stablecoins, sistemas bancários tradicionais e novos modelos de liquidação devem coexistir por muitos anos. A diferença é que, cada vez mais, os usuários deixarão de perceber essa complexidade.
O melhor sistema financeiro do futuro provavelmente será aquele que ninguém nota.
Assim como a internet permitiu que a informação circulasse globalmente em tempo real, a próxima geração da infraestrutura financeira caminha para permitir que o dinheiro circule com a mesma velocidade.
E, como destacou Eduardo Santos durante o painel, essa transformação não será construída por uma única tecnologia.
Será resultado da integração entre diferentes camadas de inovação, trabalhando juntas para remover barreiras e tornar os pagamentos cada vez mais invisíveis para quem realmente importa: o usuário.

