Em painel no Web Summit Rio 2026, especialistas discutem como Pix, Open Finance, moedas digitais e novas tecnologias podem ampliar o acesso dos brasileiros a crédito, investimentos e oportunidades internacionais.
Durante décadas, a discussão sobre inclusão financeira esteve associada a uma pergunta relativamente simples: como fazer mais pessoas terem acesso a uma conta bancária?
Essa questão orientou políticas públicas, investimentos privados e iniciativas de transformação digital em diversos países. No Brasil, os avanços dos últimos anos fizeram com que boa parte desse desafio fosse superada. Hoje, milhões de brasileiros realizam pagamentos instantâneos, movimentam recursos pelo celular e acessam serviços financeiros sem precisar entrar em uma agência.
Mas a próxima etapa parece significativamente mais complexa.
O debate realizado durante o Web Summit Rio 2026, com participação de Cristiane Pelajo, do ex-ministro da Economia Paulo Guedes e de Glauber Mota, CEO da Revolut Brasil, trouxe uma provocação relevante: a inclusão financeira do futuro não será medida apenas pelo número de contas abertas, mas pela capacidade das pessoas acessarem oportunidades econômicas em escala global.
A discussão ocorre em um momento particularmente importante. O Brasil consolidou-se como uma das maiores referências mundiais em inovação financeira e agora começa a enfrentar uma nova questão: como transformar infraestrutura digital em mobilidade econômica.
O Brasil resolveu um problema que muitos países ainda enfrentam
Poucos países passaram por uma transformação financeira tão acelerada quanto o Brasil nos últimos anos.
Durante a pandemia, cerca de 70 milhões de brasileiros foram incorporados ao sistema financeiro formal para receber o auxílio emergencial. Muitos deles faziam parte de uma parcela da população frequentemente chamada de “invisíveis financeiros”, pessoas sem relacionamento bancário consistente e com acesso limitado a produtos financeiros tradicionais.
Ao mesmo tempo, o lançamento do Pix redefiniu a forma como recursos circulam na economia. Segundo o Banco Central, o sistema já conta com mais de 170 milhões de usuários cadastrados e é utilizado por mais de 90% da população adulta brasileira. Em 2025, movimentou mais de R$ 27 trilhões, consolidando-se como o principal meio de pagamento do país e um dos maiores sistemas de pagamentos instantâneos do mundo.
Mais do que velocidade, o Pix trouxe algo frequentemente subestimado nas discussões sobre tecnologia financeira: inclusão operacional. Pequenos empreendedores, trabalhadores autônomos e consumidores passaram a acessar transferências instantâneas sem custos relevantes e sem barreiras tecnológicas significativas.
Mas o painel trouxe uma reflexão importante. A bancarização é apenas o primeiro passo.
Ter uma conta não significa estar incluído economicamente
Uma pessoa pode possuir conta bancária, utilizar o Pix diariamente e ainda assim estar distante das principais oportunidades econômicas disponíveis no mercado.
Essa é a diferença entre inclusão financeira básica e inclusão financeira plena.
Segundo o relatório Global Findex, do Banco Mundial, o percentual de brasileiros com acesso a uma conta financeira saltou de aproximadamente 56% em 2011 para mais de 84% em 2021, uma das maiores evoluções registradas entre as grandes economias emergentes.
Ainda assim, acesso não significa necessariamente oportunidade.
A capacidade de obter crédito em condições competitivas, construir patrimônio, investir, empreender e participar da economia digital global continua sendo um desafio para milhões de pessoas.
Nesse contexto, a discussão apresentada no Web Summit amplia a visão tradicional sobre o tema. O desafio deixa de ser apenas conectar pessoas ao sistema financeiro. Passa a ser conectar pessoas ao potencial econômico que esse sistema pode gerar.
O Open Finance pode ser a evolução mais importante depois do Pix
Se o Pix simplificou a movimentação de dinheiro, o Open Finance tem potencial para transformar a circulação de informações financeiras.
O modelo brasileiro é considerado um dos mais avançados do mundo. Segundo o Banco Central, o ecossistema já ultrapassa 70 milhões de consentimentos ativos, consolidando-se como uma das maiores iniciativas globais de compartilhamento de dados financeiros.
Na prática, a lógica é simples: os dados pertencem ao cliente, não à instituição.
Essa mudança pode parecer técnica, mas possui implicações profundas para a concorrência e para a inclusão financeira. Ao permitir que consumidores compartilhem seu histórico financeiro entre diferentes instituições, abre-se espaço para modelos de crédito mais eficientes, experiências mais personalizadas e acesso ampliado a serviços que antes dependiam de relações bancárias longas e burocráticas.
Segundo estudo da Oliver Wyman, iniciativas de Open Finance podem gerar centenas de bilhões de dólares em valor econômico global até o final da década, impulsionando inovação, competitividade e inclusão.
A próxima fronteira será global
Uma das mensagens mais interessantes do painel foi a ideia de que a tecnologia está reduzindo as barreiras entre mercados nacionais.
Historicamente, participar da economia internacional era algo restrito a grandes empresas ou investidores sofisticados. Hoje, esse cenário começa a mudar.
Plataformas digitais permitem investimentos globais, contas multimoeda, pagamentos internacionais instantâneos e acesso a produtos financeiros antes indisponíveis para grande parte da população.
É nesse contexto que ganham força temas como stablecoins, moedas digitais emitidas por bancos centrais, tokenização de ativos e contratos inteligentes.
Embora ainda existam desafios regulatórios relevantes, essas tecnologias apontam para um futuro em que fronteiras financeiras se tornam cada vez menos perceptíveis para o usuário final.
A mesma lógica que tornou o Pix invisível para milhões de brasileiros pode se repetir em escala global. O usuário não precisará entender a tecnologia. Precisará apenas perceber que o dinheiro circula de forma mais rápida, mais barata e mais eficiente.
O Brasil pode ter uma vantagem competitiva inesperada
Um dos pontos mais provocativos da discussão foi a análise do posicionamento estratégico do Brasil na nova economia digital.
Além de possuir um dos sistemas de pagamentos mais avançados do mundo, o país reúne características que podem se tornar ainda mais relevantes nos próximos anos.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), aproximadamente 85% da matriz elétrica brasileira é composta por fontes renováveis, percentual muito superior à média global. O Brasil também concentra uma das maiores reservas hídricas do planeta e possui acesso a minerais estratégicos para tecnologias emergentes.
Em um contexto de expansão da inteligência artificial, data centers e infraestrutura digital, esses fatores podem se transformar em vantagens competitivas importantes.
Ao mesmo tempo, décadas convivendo com inflação elevada obrigaram o sistema financeiro brasileiro a desenvolver soluções sofisticadas de processamento, liquidação e transferência de recursos, capacidades que se mostraram particularmente valiosas durante a transformação digital acelerada dos últimos anos.
A próxima etapa da inclusão financeira passa pelas empresas
Grande parte da discussão sobre inclusão financeira costuma se concentrar no consumidor final. No entanto, existe uma camada igualmente importante para o desenvolvimento econômico: a inclusão das empresas em uma infraestrutura financeira moderna e eficiente.
Pequenas, médias e grandes empresas dependem de pagamentos, recebimentos, conciliações, crédito e automação financeira para crescer. Quanto mais simples e acessíveis esses serviços se tornam, maior tende a ser a produtividade da economia como um todo.
Nesse contexto, fintechs e empresas de tecnologia financeira desempenham um papel cada vez mais relevante ao transformar processos historicamente burocráticos, lentos e dependentes de integrações complexas.
O Stark Bank é um exemplo desse movimento. Nos últimos 12 meses, a empresa processou mais de R$ 670 bilhões em transações via Pix, tornando-se uma das maiores operações independentes de infraestrutura financeira do país. O volume reflete uma transformação estrutural em curso: empresas de diferentes segmentos passaram a incorporar pagamentos instantâneos diretamente em seus produtos e operações, reduzindo custos, aumentando eficiência e ampliando sua capacidade de escalar negócios.
A lógica é semelhante à discutida no painel do Web Summit. Assim como a inclusão financeira individual depende do acesso a serviços modernos, a competitividade das empresas também depende de infraestrutura capaz de acompanhar a velocidade da economia digital.
Em outras palavras, não basta que pessoas estejam conectadas ao sistema financeiro. É preciso que empresas também tenham acesso às ferramentas necessárias para inovar, crescer e competir em escala global.
O anúncio da Revolut sinaliza confiança no mercado brasileiro
O painel também serviu como palco para um anúncio estratégico da Revolut.
A empresa confirmou a criação de um advisory board independente para apoiar sua operação brasileira, reunindo nomes como Ana Novaes, Luiz Lobo e Paulo Guedes.
Mais importante do que a composição do conselho foi a mensagem transmitida pela companhia. O Brasil deixou de ser apenas um mercado de expansão. Passa a ser uma referência para outras operações globais da empresa.
A decisão reforça uma percepção cada vez mais presente entre empresas internacionais de tecnologia financeira: parte das soluções que definirão o futuro dos serviços financeiros pode surgir justamente em mercados que precisaram resolver desafios complexos de inclusão, escala e digitalização.
A inclusão financeira do futuro será medida por oportunidades
Talvez a principal conclusão do debate seja que o conceito de inclusão financeira está passando por uma redefinição.
Durante anos, o objetivo foi conectar pessoas ao sistema financeiro. Agora, o desafio é conectar pessoas às oportunidades que esse sistema pode criar.
A conta bancária deixa de ser o destino final. Torna-se apenas o ponto de partida.
O sucesso da próxima fase não será medido pelo número de contas abertas, mas pela capacidade de ampliar acesso a crédito, investimentos, educação financeira, empreendedorismo e mercados globais.
O Brasil já demonstrou que consegue construir infraestrutura financeira de classe mundial. A próxima pergunta é ainda mais ambiciosa: como utilizar essa infraestrutura para ampliar mobilidade econômica, competitividade internacional e geração de riqueza para milhões de pessoas?
Essa talvez seja uma das discussões mais importantes da próxima década para o setor financeiro.

